Mulheres, mães e estudantes: desafios do patriarcado durante a pandemia


A pandemia da COVID-19, que assola o Brasil e o mundo, tem posto às claras as condições das mães que vêm sofrendo com o alto índice de estresse e cansaço somado aos cuidados da casa, dos/as filhos/as, dos estudos, do sustento de si e dos seus. Além do trabalho doméstico e de cuidado, há ainda a carga mental do trabalho emocional, ainda mais invisível. São as mulheres que, em geral, assumem a frente no gerenciamento da casa e do cotidiano, tentando prever as necessidades de todos/as e se preocupando com a saúde da família. Isso se agrava ainda mais, quando essa mulher, além de mãe e trabalhadora, é estudante.


Dentre as mulheres que podem realizar atividades profissionais em casa e executar o home office, como é o caso da maioria das mães estudantes, o desafio é imenso, já que o trabalho externo e o doméstico se misturam e parecem não se findar, gerando uma sobreposição sobre o outro. O tempo da faxina, de cozinhar e lavar se somam às tantas outras demandas externas.




Reprodução | EL PAÍS



Mães se tornam educadoras de seus filhos/as. Filhas de idosos e enfermos se tornam cuidadoras e os trabalhos outrora compartilhados com creches e escolas se acumulam, apagando a divisão entre tempo trabalho e tempo casa. Após a implementação de medidas de isolamento em diversas partes do mundo, equipes editoriais de publicações científicas têm noticiado uma queda considerável na quantidade de submissões de artigos produzidos por mulheres em todo o mundo, enquanto as publicações dos homens aumentaram em quase 50%.


Evidenciando assim como a sociedade impõe que a responsabilidade pela criação dos filhos/as é sempre das mulheres. A mulher que decide continuar trabalhando após ser mãe se submete a uma rotina exaustiva de trabalho, pois tem seu corpo apropriado tanto pelo capital, no mercado de trabalho, quanto nas horas gratuitas gastas no serviço doméstico, que não é reconhecido enquanto trabalho. Esse serviço doméstico é o trabalho que sustenta a sobrevivência do capitalismo, ou seja, para que a classe trabalhadora possa trabalhar, alguém precisa ser responsável pela casa, pela família e criação dos filhos/as, e ainda exercer essa função de forma gratuita. Portanto, ser mãe é ser cobrada como única responsável pela educação dos filhos, especialmente pelo fracasso, porque se a criança cumprir o roteiro social do brasileiro médio, o bônus será creditado ao pai.


Não podemos falhar, mas se der certo, também não foi produto do nosso empenho, entendendo aquilo que a feminista Alexandra Kollontai explicou há quase um século: “O capitalismo colocou um fardo esmagador sobre os ombros da mulher: fez dela uma trabalhadora assalariada sem ter reduzido seus cuidados como governanta ou mãe”.


A sociedade capitalista-patriarcal-racista em que vivemos, utiliza datas como o dia das mães para a manutenção de uma ideologia de dominação, do corpo e da vida das mulheres, pois no geral, as mulheres são vistas socialmente como dotadas de características natas para as atividades que remetem ao cuidado, como se toda mulher nascesse com o instinto materno, entendendo que mãe é aquela capaz de fazer tudo e qualquer coisa pelo seu filho/a, sendo ele/a sua única prioridade: larga tudo por ele/a, acorda cedo, o/a arruma para a escola, faz o café da manhã, acompanha os deveres de casa, é responsável pelos afazeres domésticos e os têm em dia, no entanto, essa rotina é um padrão inatingível para mulheres da classe trabalhadora, e essa regra gera uma carga mental violenta às mulheres, que se sentem responsáveis por tudo isso que a sociedade lhes impõe e se culpam diariamente por não conseguirem atingir esse “lugar de mãe”.


Precisamos ter em mente que o direito de ser mãe é também o direito de exercer uma função rodeada de muito amor e afeto, e que esta data comemorativa sirva também como um momento de reflexão sobre as condições sociais, econômicas e políticas que mães enfrentam, inclusive sobre o direito de escolha e a possibilidade de exercerem livremente, de acordo com nossas particularidades e sem padrões, uma maternidade coletiva e com responsabilidade compartilhada com a sociedade civil e com o Estado.


Por: Ana Keil, Secretária Geral & Andriele Coscoski, Diretoria de Gênero



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