COTAS RACIAIS NA UNICENTRO: sem reparação não existe antirracismo!


Fruto de intensa batalha do movimento negro brasileiro, iniciada por militantes como Abdias do Nascimento, a Lei 12.711, que estabelece a adoção de cotas raciais nas universidades federais, foi promulgada em 29 de agosto de 2012, a fim de democratizar o acesso às salas do ensino superior.


As cotas raciais são ações afirmativas de reparação que busca mitigar e diminuir a desigualdade racial na sociedade brasileira. São passos necessários para diminuir a vantagem que historicamente privilegiou pessoas brancas em detrimento de não brancas, sejam elas negros/as, indígenas ou quilombolas.


Depois de 9 anos da lei, a Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) ainda não aderiu à política de cotas, juntamente com a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). São estas, as duas únicas universidades estaduais que desconsideram em sua politica, a formação social brasileira, ao se omitirem da responsabilidade de reparar a diáspora africana e escravização de pessoas negras e indígenas.


Como diz o guerrilheiro na animação “Uma história de amor e fúria", viver sem conhecer o passado é andar no escuro: o escravismo colonial brasileiro não ficou no passado, os heróis que cultivamos não podem continuar sendo os genocidas do passado. O povo brasileiro e suas instituições não podem continuar negando suas heranças históricas e cruéis, pois elas continuam organizando a sociedade contemporânea através de normas, instituições e condutas.


Sob a canetada da princesa Isabel ao final do Século XVIII, a abolição da escravatura, veio aliada à lei de terras, que cumpriu o objetivo de organizar e concentrar a propriedade privada

As pessoas negras escravizadas neste contexto pós abolição e início do século XIX, foram jogadas à sua própria sorte em um Brasil de elites, sem nenhuma preocupação em inseri-las na sociedade. Sem terra, sem teto, sem renda ou profissão, tiveram que competir ao longo do século, com a mão de obra imigrante européia.


Este processo histórico condicionou muitos negros e negras ao retorno às terras de seus senhores enquanto assalariadas, o que garantia um lucro ainda maior para os fazendeiros, através do excedente, visto que não tinham mais que oferecer as condições de trabalho, como teto e alimentação, embora precários.

Sem monopólio da propriedade, a população negra foi compulsoriamente marginalizada, tendo que ocupar terrenos de risco, morros ou locais com habitação precária.


Essa organização geográfica, econômica e social, configura até hoje nossa sociedade, exemplo disso é que dos trabalhadores/as sem ocupação, 64% são pretos e pardos de acordo com levantamento do IBGE e 76% dos mais pobres também possuem essa mesma cor.

A história brasileira e os dados estatísticos demonstram que o Brasil foi e é um país racista desde a invasão portuguesa. Por isso, estudantes, professores/as e sociedade civil de Irati e Guarapuava vem se organizando pela implementação de cotas raciais e quilombolas na Unicentro.


Através da Campanha por Cotas Raciais e Quilombolas na Unicentro, o movimento já construiu cine-debates e rodas de conversa, espaços de formação e articulação para compreender sobre a importância e profundidade da proposta. Além disso, a Campanha vem atuando de forma muito intensa nas redes sociais através do Instagram @lutaporcotas_unicentro e Facebook Luta por cotas raciais e quilombolas.


O Brasil, nomeado por seus povos nativos como Pindorama, foi terra saqueada, explorada, onde se construiu as bases da sociedade com quase 400 anos de etnocidio indígena e escravização de negros.


A democratização do acesso ao ensino superior brasileiro através de cotas precisa seguir em curso até que todas as universidades garantam efetivamente as cotas raciais, quilombolas e indígenas. Este é um passo de reparação!



Por Fernan Silva, Diretor de Cultura & Ana Keil, Secretaria Geral



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