20 de novembro de 2015

Os filhos de Zumbi: Consciência e Resistência

Por lailla D Paula    

    Cada ano, em novembro, crescem em todo o Brasil as comemorações ligadas ao Dia da união e consciência negra. Desde alguns anos, a data do martírio do Zumbi dos Palmares se integra no calendário nacional. Obviamente não enquanto feriado em todo território Brasileiro, pois o simples fato de tal data existir é o que incomoda.


    A data, tem como objetivo não deixar que a sociedade se esqueça de todo sofrimento vivido pelos nossos antepassados, a data representa o silencio que durante séculos nos fizeram ter e que nos anos de hoje podem ser interpretados como gritos de guerra que não serão calados. Tivemos durante nosso crescimento, a base do nosso conhecimento em cima de livros que roubaram nosso passado como Alzheimer, fazendo com que pouco se saiba do ocorrido em 1695, onde senhores de engenho, bandeirantes vindos de São Paulo e militares de Pernambuco invadiram o Quilombo dos Palmares, no alto da Serra da Barriga, hoje Alagoas, onde viviam pacificamente mais de 30 mil pessoas, negras, índias e brancas, em uma sociedade livre e mais igualitária. Os invasores, com respaldo da sociedade e da Igreja, mataram milhares de homens, mulheres e crianças. 
    O líder Zumbi dos Palmares, traído por um companheiro, preferiu entregar-se aos inimigos para evitar um massacre maior. No dia 20 de novembro de 1695, foi fuzilado e teve seu corpo esquartejado em uma praça do Recife. Até hoje, na comunidade Quilombola de Muquém (AL), sobrevivem do artesanato de argila descendentes de alguns sobreviventes do massacre.

    Mais de 300 anos depois, as comunidades negras e os quilombos são exemplos de resistência cultural e social do povo negro, que até hoje passa pelos mesmos problemas que Zumbi, Dandara e nossos demais antepassados sofriam, só que em outros moldes.
No Brasil, os dados oficiais mostram que as desigualdades sociais são mais profundas à medida que as pessoas pobres não só são empobrecidas, mas são negras, dado o viés que segundo os olhos da sociedade onde vivemos “Preto é sinônimo de pobreza”. Conforme o censo mais recente demonstra, 44% da população brasileira é afro-descendente, mas só 5% das pessoas se declaram negras. Estes dados se tornam mais ainda espantosos quando sabemos que, da população brasileira mais empobrecida, 64% são pessoas negras. O Brasil branco é 2,5 vezes mais rico que o Brasil negro. Nos últimos anos, as diferenças entre negros e brancos vêm se mantendo. Na educação, um branco de 25 anos tem, em média, mais do que o dobro de anos de estudo do que um negro da mesma idade.
    Os que possuem maior poder aquisitivo, utilizam de tal para fazer a manutenção do racismo, pois essa manutenção só vem a acrescentar status em suas vidas.  Cria-se uma lei que proíbe e condena o racismo, mas mantém estruturas sociais e econômicas que o alimentam e que o fazem mais forte. Evita-se que “um viole o direito do outro”, mas persiste a existência de um sistema cuja sua mais latente convicção é o extermínio do povo negro. Tapando o sol com a peneira, o governo se mostra perante ações midiáticas procurado em solucionar esta desigualdade através de medidas que continuam compensatórias e provisórias, já que a solução mais profunda exige um processo de reestruturação da sociedade, o que obviamente é um processo árduo e lento qual os não-negros não abririam mão de seus privilégios para vivencia-lo.

    A importância de tal data está no fato de que se não fosse por Dandara, hoje eu ainda estaria levando chicotadas físicas, quando na realidade o que me acontece hoje é apenas o espancamento social, psicológico e emocional por carregar a cor que carrego, o que mais uma vez mostra que o racismo é estrutural. Ser negra é resistir, e resistir é carregar nos ombros todo orgulho, sofrimento, história, cultura e a ânsia por igualdade que até hoje tem o meu povo.
   Viva Dandara, viva Zumbi, viva você que resiste em sua universidade, trabalho, faculdade, cursinho ou técnico. Viva a mãe de família que cria os filhos sozinha pois sofreu com o abandono da mulher negra, viva ao muleque de periferia que não tem uma grande expectativa de vida pois oportunidades não lhe são dadas, viva a “novinha” que em sua sala de aula além de não saber que sofre assedio pelo professor “legal”, ouve diariamente que seu cabelo é “ruim, Bombril, e ou palha de aço”.  Axé pra nós, muita resistência pois a luta por liberdade qual nossos antepassados travaram, ainda está longe de acabar.

Persistir, resistir...





                              Lailla D Paula
Diretora de Combate ao Racismo da
União Paranaense dos Estudantes

                                                                              

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