16 de agosto de 2012

UNE FAZ 75 ANOS PELA EDUCAÇÃO!

Confira a entrevista que o presidente da entidade, Daniel Iliescu, concedeu à revista Caros Amigos



A União Nacional dos Estudantes (UNE) comemorou nesse sábado (11) 75 anos de lutas. A cerimônia de aniversário teve como principal marca o lançamento da pedra fundamental de sua sede na Praia do Flamengo, Rio de Janeiro, demolida em 1980 no governo do ditador João Baptista Figueiredo.
Abaixo, o atual presidente, Daniel Iliescu, fala à Caros Amigos da história, das lutas e conquistas atuais e do que significa a retomada do espaço tradicional, palco de efervescência política e cultural e do surgimento de grandes artistas e movimentos.
Caros Amigos – É possível traçar algum paralelo entre a UNE de outros tempos, como nos anos 60, em termos de representatividade e peso político?
Daniel Iliescu – Sim. Primeiramente, antes do paralelo com a geração dos anos 60, acho que convém dizer que a UNE tem um significado de expressão não só dos estudantes, mas de alguma forma da juventude brasileiro; em vários momentos dessa história de 75 anos foi de muita integridade, de muita efervescência e conseguiu influenciar o debate político do país. Então, acho que o primeiro paralelo a se fazer, não só com a geração dos anos 60, mas de várias gerações de jovens que ajudaram a construir essa entidade, que fez com que a UNE tivesse esse peso político, simbólico, cultural que tem é essa característica de pautar o debate nacional sempre com uma perspectiva ousada, jovem. Com a geração dos anos 60 em especial, o mundo é muito diferente, o Brasil é muito diferente. Naquele momento havia um polarização entre socialismo e capitalismo, Guerra Fria, e o Brasil vivia no início da década de 60 muito virtuoso, de muita efervescência política e cultural no Brasil, impulsionado pelo governo João Goulart, o Cinema Novo, enfim, várias expressões culturais e políticas que moldavam aquela geração, mas que foi violentada com o golpe civil-militar, respaldado por parte da sociedade, que podou as possibilidades que essa geração tinha, não só a geração que estava na UNE ou no movimento estudantil, mas uma geração que estava à frente do país através da cultura, da política, da educação, pensando em desenvolver o país. E talvez o mais difícil saldo da ditadura, além dos desaparecidos, dos mortos, das vidas humanas, foi ter alijado uma geração da possibilidade de ter ajudado o país naquele momento.
Em termos de representatividade, de atuação política, normalmente a gente se vê pautado por uma opinião que eu acho que é uma armadilha, conservador, de subestimar as nossas gerações atuais e deixam a entender que nossa geração deixa a dever para outras gerações, como a dos anos 60, muito obstinada, combativa, muito generosa, que doou a própria vida. Porque em primeiro lugar àquela altura, um porcento dos brasileiros jovens entre 18 e 24 anos era universitário. A UNE tinha o ‘Auto dos 99′, produção do Centro Popular de Cultura (de autoria de Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa, Carlos Estevam Martins, Cecil Thiré e Marco Aurélio Garcia), que fazia referência aos noventa e nove porcento que estavam fora da universidade. Hoje, a gente ainda tem um índice muito pequeno perto da necessidade do país, mas muito maios do que a gente tinha, de catorze porcento, são seis milhões de pessoas e cujo perfil social é mais popular, porque se teve uma ampliação do acesso e em muito se dá pela inclusão de trabalhadores, de renda mais baixa.
No último congresso, a gente chegou a noventa e sete porcento das universidades do país, o que dá uma dimensão da capilaridade que esse movimento tem. Não há outra entidade da sociedade brasileira que sejam tão antigas e que ao mesmo tempo sejam tão atuais, tão jovens. Esse que é o principal patrimônio da UNE, a capacidade de renovação e essa vida que é capilarizada, você chega em cada lugarzinho do Brasil que eu pude visitar, tem uma galera disposta a, entre aspas, ‘matar ou morrer’, que entende a UNE, que entendem que têm que participar da nossa luta cotidiana hoje. Então, a gente tem avançado em representatividade, em alcance, até porque a vida do país hoje é mais democrática e tem melhores condições para fazer isso.
CA – Há também opiniões de que os estudantes de hoje são mais alienados.
DI - A visão que eu tenho, a partir da experiência que tenho aqui na UNE, é uma juventude cada vez mais protagonista, cada vez mais engajada. E há cada vez mais formas para o jovem expressar isso. Seja pelo trabalho, porque a grande maioria dos estudantes trabalham, seja pelo estudo, pela pesquisa, pela extensão, seja pela inúmeras formas de participação pelas redes sociais ou através da militância, como é tradicionalmente feita, com passeatas, assembleias, acho que tem muita gente participando. Existe muita gente que não estão a fim de se acomodar porque nosso sonhos, nossos desafio por um Brasil mais justo, nos tornam ainda pequenos diante deles. Eu acho que existe muita gente mobilizada, que nossa geração não é alienada; pelo contrário, existe cada vez mais vontade da juventude de participar. Mas a necessidade que a gente tem de que a juventude participe é sempre maior, então, a gente deve cumprir sempre o papel de amplificar essa vontade da juventude, que historicamente existe de querer discutir política, de que querer contribuir para uma vida mais justa.
CA – O acesso à educação ainda é uma das lutas da UNE. Como você avalia os atuais projetos do governo de inclusão?
DI - A UNE entende que o investimento em educação é a questão decisiva, a principal bandeira de luta da sociedade brasileira, o investimento em educação é virtuoso e gera benefícios em inúmeras outras áreas. E dentro desse debate, havendo ampliação de investimento em educação de qualidade, e portanto melhorar também o acesso, a principal luta da UNE é por uma reforma universitária. Ao longo dos últimos anos a gente vê que esse projeto de uma revolução na educação brasileira, ele veio avançando com medidas chateadas. A gente vê que a década de 90 foi uma década de muitos embates na educação com tentativas do neoliberalismo de sucatear, de privatizar as universidades por dentro através de terceirização, financiamentos de pesquisas das fundações de apoio; ao longo dos últimos anos, nos governos de Lula e Dilma, tiveram em primeiro lugar um importante papel de reverter uma tendência, foi abortada a tendência de sucateamento e se iniciou um processo importante de investimento em educação e do papel do Estado como indutor do desenvolvimento da educação pública. Isso foi cumprido e outros investimentos, como o próprio orçamento do MEC quase triplicou nesse período e muitas lutas a gente conseguiu aprovar, conquistar vitórias, uma delas é a das cotas, que surgiu através do movimento estudantil com o Movimento Negro, foram implantadas pela primeira vez aqui no Rio (de Janeiro) e foram sendo implementadas através dos conselhos universitários e recentemente ganhamos duas importantes batalhas, uma foi a aprovação da constitucionalidade e nessa semana a aprovação do Senado de que vai haver regime de cotas em todas as universidades federais do Brasil; interiorizarão, criação de cursos noturnos, o próprio Enem e Sisu que veem superando o antigo vestibular. Então são medidas que avançaram, mas são avanços sem dúvida nenhuma insuficientes.
Se por um lado o ProUni ampliou de forma muita importante o acesso, um milhão de estudantes entraram nas universidades, precisamos investir em qualidade, regulamentando o ensino privado, porque infelizmente nos governos Lula e Dilma ainda não se optou para regulamentar o ensino privado – educação pra gente não é mercadoria e é muito importante que existam regras claras da função social, da democracia interna, da qualidade, das políticas de bolsas, reajustes de mensalidades -; infelizmente os governos não avançaram na regulamentação. Mas a ampliação do acesso pelo ProUni é muito importante, há que se reconhecer isso.
No caso das universidades públicas, você tem por exemplo o Reuni, um projeto com uma série de contradições, mas com elementos positivos, porque ele duplicou as vagas nas federais. Em cinco anos duplicou as matrículas, no entanto, a gente entende que é insuficiente. Você vê a atual greve nas federais; na nossa leitura, essa greve é diferente das greve da década de 90 porque ela não responde ao processo de sucateamento, enfim; é uma greve que reage ao que a gente chama de ‘dores do crescimento’. Quer dizer, a universidade expandiu, mas a própria instituição universitária não está preparada e muitas vezes não quede receber o povo brasileiro. Então, as contradições dessa universidade é mais latente, ficaram potencializadas com essa expansão. Então, o restante que falta, agora faz mais diferença; o déficit no quadro de pessoal, agora faz mais diferença; a infraestrutura, que deixa a desejar, agora faz mais diferença, porque a demanda por laboratório, por quadras esportivas, por restaurantes universitários, ela se ampliou. É uma greve que na nossa opinião deve reafirmar o caminho da expansão, é uma greve de uma universidade que começou a sentir o gostinho de vitórias, ao invés de redução e projeto de fechamento, começou a viver um processo de expansão, mas agora ela tem que se organizar para conquistar qualidade, que a expansão seja acompanhada dos investimentos necessários para dar qualidade. Então, os investimentos ainda são insuficientes.
Com esse principal enfrentamento que a UNE tem feito em nível nacional, com outras entidades e atores políticos, é a luta pelos dez porcento para a educação, é a luta que unifica a sociedade brasileira, é respaldada pela esquerda e pela direita no Parlamento. Depois de um ano e meio de trabalho da comissão especial do PNE (Plano Nacional de Educação), de uma comissão suprapartidária de 27 deputados dos partidos mais importantes do país, ela votou por unanimidade os dez porcento para a educação…
CA – Sobre isso, foi aprovado os dez porcento, mas ao longo de dez anos, não é imediato. Como você avalia isso?
DI – A UNE entende como bandeira para a educação é dez porcento já. Porque existe um déficit histórico, uma dívida do Brasil com sua população no setor da educação. A gente travou um debate grande até a tramitação no Congresso Nacional e a maneira como foi apresentada polarizou duas opiniões: uma, defendida pelo governo federal, de que devia ser sete porcento do PIB, e a pressão da sociedade com muito destaque para a UNE, Ubes , dos estudantes, pelos dez porcento do PIB. Essa pressão foi tão grande que o governo alterou de sete para sete e meio porcento e depois para oito porcento sua proposta. E no dia 26 de junho, a UNE realizou uma macha com três mil estudantes e nesse mesmo dia caminhou até o Congresso e ocupamos a comissão com quatrocentos estudantes. O dia começou com o governo querendo adiar a votação para novembro para não ter que lidar, na nossa leitura, com o fato de ter sido conta os dez porcento do PIB durante o processo eleitoral. A nossa ocupação derrotou o requerimento porque constrangeu os parlamentares e, contrariando todos os prognósticos, a gente convenceu um a um os parlamentares ali dentro de que os oito porcento é um crime com o Brasil porque apesar de ampliar, amplia em um ritmo muito lento e desperdiça uma oportunidade que uma década de oportunidades pra gente. E os dez porcento do PIB até 2022 é o mínimo necessários pra gente reverter essas dívidas com o país. Em temos concretos, a possibilidade dos dez porcento para já que a gente defende, não estava colocada na comissão, que previa sete ou oito porcento ao longo de dez anos. E mesmo assim sofreu uma resistência muito grande de parte da mídia burguesa, que chamou de populismo eleitoral; e teve uma declaração infeliz também do ministro da Fazenda, o Mantega, que disse que os dez porcento pode quebrar o estado brasileiro e a gente entende que ele insulta a inteligência das pessoas, porque uma medida eficaz para evitar isso é fazer uma auditoria da dívida pública, que consome quarenta e nove porcento do orçamento da União, caso de 2011; o investimento em educação é virtuoso para agregar valor à nossa força de trabalho, à nossa pauta de exportações e para desenvolver o país.
CA – Quais outras grandes bandeiras da UNE hoje?
DI – Algumas questões para a UNE sempre serão o centro da nossa luta, o aprofundamento da democracia, a afirmação da soberania nacional dentro de uma perspectiva de integração da América Latina, o investimento em educação e mais direito para juventude, o direito à cultura, à diversidade, a uma cidade não violenta.
Mas eu destacaria as principais bandeiras dos dez porcento para a educação e outra, que é a vincularão de cinquenta porcento, tanto do fundo social do Pré-Sal, quanto dos royalties de estados e municípios, para investimento em educação pública. A gente entende que essa bandeira, se aprovada, é uma conquista para muitas e muitas gerações.
CA – Alguns setores, tanto da direita, quanto da esquerda, acusam a UNE de peleja porque tem gente ligada a partidos da base do governo. O que você tem a dizer a esses críticos?
DI – Esse debate é saudável e a UNE lutou muito tanto para que as pessoas pudessem criar todo e qualquer partido, quanto para que as pessoas pudessem fazer críticas, tanto para a imprensa ser livre. A nossa resposta a isso é na política concreta, esse tipo de crítica sempre existiu. Mas as principais opiniões que a UNE defende são opiniões de enfrentamento com o governo federal – os dez porcento para a educação, o governo é contra; os cinquenta porcento do Pré-Sal, o governo não tem opinião; redução drástica da taxa de juros, o governo continua praticando, em que pese a Dilma ter iniciado um processo de baixar os juros. Não porque a gente acha que é um péssimo governo e deva ser derrotado, mas porque a gente entende que mesmo os governos que estão mais identificados com os compromissos históricos com a classe trabalhadora, com a pauta dos estudantes, o papel da UNE é ser um instrumento da pressão. Pra gente, governo é que nem feijão, só funciona se tiver pressão. Então, a gente reafirma nossa autonomia; agora, a livre filiação dentro da UNE e não filiação também, a gente entende que é uma convivência plural, saudável, que é um trunfo da UNE, ser uma entidade unitária dentro da pluralidade. A nossa autonomia é inegociável.
CA – O que para você significa a reconstrução da sede no Rio de Janeiro?
DI – Acho muito bonito, temos que tratar com muito carinho. A gente entende que tem um sentido transcendental, transcende a nossa geração, transcende a própria UNE. Porque tem muita gente que nem era do movimento estudantil, mas deu a vida aqui, que lutou por um Brasil melhor. A dimensão que a gente tem é que a reconstrução dessa sede simboliza também mais um passo na reconstrução da democracia no Brasil. Vamos homenagear aqueles que tombaram durante a ditadura, como o estudante Edson Luis, morto em 68, e tantos e tantos outros.
O projeto em si é apaixonante, além da sede de um prédio de treze andares, com três no subsolo para estacionamento e um centro cultural, uma área externa linda com desenho do Niemeyer, com sustentabilidade ambiental de primeira linha, com acessibilidade. O centro cultural a gente pretende que seja uma nova casa do cinema brasileiro, porque o Brasil tem hoje poucas dezenas de salas e nenhuma delas passa produções brasileiras. Apesar do avanço da indústria brasileira, há uma luta para produzir um filme e depois disso não tem onde exibir. Queremos que o centro cultural seja essa acolhida ao cinema brasileiro; que valorize a história da UNE, dos CPCs, que gerou Vianinha, Guarnieri, tanta gente bacana, tanta riqueza cultural.
Por Aray Nabuco
Caros Amigos

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