8 de junho de 2016

Quem de nós será a próxima?


A utilização dos espaços nos meios de comunicação deve ser feita de forma responsável, avaliando inclusive, o risco de expor publicamente opiniões orientadas por pura emoção. Quando um texto de opinião, criado por pura emoção e conservadorismo, trabalha para desconstruir e silenciar a luta contra a cultura do estupro, acaba, na realidade, por perpetuar e legitimar a cultura do estupro.

Lutar contra a cultura do estupro não deve ser apenas uma pauta do movimento feminista, deve ser de toda a sociedade, afinal, todos e todas nós somos afetados de alguma forma pela perpetuação dessa cultura. Seria irresponsável, então, atribuir a luta pelo respeito ao corpo alheio à esquerda, ou pior, partidarizá-la. Afinal, o que a oposição dessa força ou partido fará para se apresentar como oposição? Apoiar a cultura do estupro? Apoiar a redução das mulheres a objetos de satisfação e consumo masculino?

As argumentações em torno de todo homem ser considerado um estuprador em potencial, trata da seguinte questão: Nós nunca sabemos quem tentará nos estuprar. Ou seja, podendo ser qualquer um, todos se tornam estupradores em potencial. Infelizmente, entre os potenciais estupradores também estão amigos, colegas, familiares e companheiros. Conforme pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), aproximadamente 70% dos estupros são praticados por parentes ou pessoas conhecidas e, segundo o  Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada dez minutos ocorre um estupro no Brasil,  e estima-se que apenas 35% dos casos são denunciados. Isso significa que todos os homens, sem exceção, vão estuprar todas as mulheres? Não.

Parece-me bem óbvio que poucas pessoas nos últimos quarenta anos declararam-se publicamente favoráveis à violência contra a mulher e ao estupro – muito embora a cultura do estupro faça não apenas vítimas mulheres –. Mas essa violência e a reprodução dessa cultura acontecem também além das frases objetivas. Comparar a violência contra a mulher à taxa de homicídios, sem qualquer recorte, representa uma imensa ingenuidade, se não má fé, uma vez que não podemos ignorar as exclusões, marginalizações e opressões da própria sociedade.

Pior ainda é o autor ter o disparate de justificar estupros através de uma diferenciação entre “homens maus” e “homens bons”. Não existe essa coisa de cinema, em que alguns nascem heróis e outros nascem vilões, especialmente quando falamos da cultura do estupro, que é reproduzida e fomentada diariamente, seja nas "piadas", nas conversas, nos relacionamentos, cantadas de rua, comerciais ou até mesmo em textos de opinião nos jornais.

Reproduz-se diariamente a ideia de que a mulher pode ser propriedade do homem. Argumenta-se que a culpa é da vítima com "ela estava pedindo" pelos mais variados fatores. Lembra-se daquela pesquisa do IPEA em que 58,5% dos entrevistados atribuíam a culpa do estupro às vítimas? Uma prova de que a cultura do estupro existe e sempre existiu é que até 2005, no Brasil, se o estuprador aceitasse se casar com a vítima ele estaria perdoado do estupro. Ou seja, mais uma vez, atribuía-se ao homem a decisão sobre o corpo e o futuro da mulher, afinal, a questão não era se a mulher queria se casar com seu estuprador, e sim se o estuprador queria oficializar a sua violência. Apenas em 2006, com a Lei Maria da Penha, foi reconhecida a violência sexual dentro do casamento. Até aquela ocasião, não se reconhecia violência sexual e o estupro dentro do matrimônio, como se a mulher, tal como um objeto, tivesse obrigação de servir ao homem, seu marido. Isso é a cultura da mulher como propriedade do homem, é a cultura da mulher como objeto sexual e é a prova da cultura do estupro.

Achou onze anos distante demais? Semana passada a nova secretária de mulheres do Governo Temer anunciou ser contra aborto,  mesmo em casos de estupro. O aborto nestes casos é garantido pelo Código Penal de 1940! A postura da Secretária representa 76 anos de retrocesso, culpando a vítima e responsabilizando-a pelo fruto da violência cometida contra o seu corpo.

O cenário não se restringe à Secretária e ao ministeriado vazio de mulheres: homens representam 91% do Congresso Nacional. Eles estão legislando contra o corpo de 52% da população brasileira - mulheres -, tentando aprovar a todo custo um estatuto que visa punir as mulheres e médicos que realizarem aborto mesmo em casos de estupro.

Pouco adianta apenas escandalizar-se com os relatos diários de estupros, é necessário  levantar-se contra a cultura do estupro, contra a exclusão das mulheres do mercado de trabalho e da política, contra a objetificação e, acima de tudo, contra as tentativas de silenciamento da luta das mulheres.

Faz-se necessário assumir que a sociedade tem uma dívida histórica com as mulheres e, para isso, não é aceitável fazer silêncio quando alguém protege - indiretamente - os estupradores, ao alegar que a cultura do estupro é uma farsa. Não é uma farsa, é real.

Estão fazendo uma nova vítima a cada dez minutos; quem de nós será a próxima?

Por Lizandra Rocha
Diretora de Mulheres da União Paranaense dos Estudantes

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